Curar padrões relacionais

Esta é uma reflexão simples sobre a forma como eu abordo os padrões relacionais em terapia. Há muitas camadas para dessecar dentro daquilo que é uma boa ou má relação, sobretudo quando falamos de ciclos que se repetem ao longo da vida.

clicos karmicos de relacionamentos

Ciclos relacionais

Estes ciclos são todos aqueles repetimos durante anos. Normalmente reparamos melhor nas relações mais íntimas, quando escolhemos sempre o mesmo tipo de namorado/a, mas isto acontece também com amigos ou até com parcerias profissionais que escolhemos fazer. Estamos a falar de quando nos aproximamos preferencialmente de um determinado tipo de pessoa ou com um tipo de comportamentos. Apesar deste padrão de pessoa nos ser familiar ele também pode ser tóxico e prejudicial.

Um exemplo pode ser o clássico “só me apaixono com quem não me valoriza”. Será a outra pessoa que não nos valoriza ou somos nós que estamos a procurar uma valorização externa em vez de olhar para dentro? Onde é que essa desvalorização começa?

É bastante complexo criar um afastamento das pessoas em questão de forma a abrir espaço para observar o padrão. É por isso que a terapia aqui pode ser uma grande ajuda, pois garante um olhar externo e isento face à situação. Este ciclos relacionais estão intimamente ligados às nossas necessidades inconscientes, podendo ser algo em que acreditamos que temos em défice e por isso vamos procurar nos outros a resposta, outras vezes são atitudes familiares que são percepcionadas como “boias salva-vidas”. Vamos falar de alguns exemplos, pois assim poderá ser mais fácil de ilustrar estes temas.

Relação por défice

Um exemplo de uma relação por défice é quando uma pessoa acredita que perdeu a capacidade de ser uma boa comunicador/a, criando a crença interna de que não sabe comunicar claramente, o que a leva a procurar pessoas com esta capacidade exacerbada, podendo até acabar por estar com alguém que se sobrepõe a ela e não a deixa falar na relação. No fundo, em vez de trabalhar a crença de que “não tenho voz”, ela estará a criar a um laço tóxico com quem reforça que ela não tem essa capacidade.

Relação por “boia salva-vidas”

Observemos agora um exemplo de uma relação por “boia salva-vidas”. Estas boias normalmente são âncoras emocionais que criamos muito novos, quando começamos a descobrir as ferramentas sociais com a nossa família. Se uma pessoa cresce num ambiente hostil e o silêncio é chave para que a hostilidade não aumente, ela vai crescer a poderá pensar que o silêncio salva. Em idade adulta esta pessoa pode procurar quem mimetize este padrão com ela. Desde que a pessoa sinta que pode continuar a utilizar este silêncio no dia-a-dia, vai achar que tudo na relação é “normal”. Este padrão é extremamente comum na nossa sociedade, por termos ainda entre nós toda uma geração vítima de uma ditadura, guerras e comportamentos opressivos.

Como observar as relações

De forma a falarmos de padrões relacionais é preciso pensar o que é a relação. Aqui reside muitas vezes a fonte de muitas crenças tóxicas, que em nada estão relacionadas com a pessoa com quem nos relacionamos. A ideia de relação constrói-se inicialmente através dos padrões familiares enquanto crescemos, posteriormente através das primeiras figuras de referência externas à família e finalmente através das primeiras relações que vivemos. São 3 camadas destintas, em períodos diferentes da vida, mas que podem marcar profundamente as nossas relações futuras, pois é muito desafiante transformar uma crença que demorou anos a consolidar.

Neste processo, além de definirmos que tipologia de relação intima queremos, também deixamos claro quais são as relações satélite. O exemplo típico “esta pessoa é só para uma loucura de verão, não é para casar”. Isto acontece porque naturalmente o nosso cérebro tem prazer em prever e arrumar conceitos em caixinhas, é uma simples poupança neurológica que é inerente a outros processos que realizamos todos os dias.

Trago isto para cima da mesa para que compreendas que quando alguém ao teu lado diz “só me aparecem pessoas assim na vida” esta é uma afirmação cheia de camadas e cheia de condicionantes que a própria pessoa criou ao longo de anos. Nem sempre é “obra do universo” ou “um desafio que ainda não ultrapassei”, muitas vezes são crenças autoimpostas sobre o que deverá ser um relacionamento.

O processo terapêutico

O processo que utilizo em terapia é o de dissociar completamente o momento presente das pessoas com quem o paciente vive o presente. Vamos isolar os comportamentos e escolhas das pessoas. É um processo complexo, pois falando de uma relação a tendência será sempre regressar à culpa no outro.

Podem fazer este exercício, imaginem que vocês têm uma caixa na mão com tudo aquilo que vos torna seres únicos. À vossa frente, está a pessoa com quem se relacionam e também tem uma caixa dela, que não vemos o que tem dentro, pois é tudo aquilo que a compõe. No meio haverá agora uma caixa comum, a caixa da relação, onde cada um colocou lá partes de si. Neste processo façam as questões: O que escolho colocar na relação e porquê? O que escolho não colocar na relação e porquê?

Medo do corte

Depois de identificar os pontos mais complexo e que precisamos rever, aquilo que normalmente surge depois é o medo. A pergunta que mais ouço é “se eu trabalhar isto termino a minha relação?”, porque este foi um padrão familiar por muitos anos e é difícil libertar. Mas acredito que no final de um processo destes ninguém tem medo de cortar com uma relação tóxica, pelo contrário, já não se vão reconhecer a elas prórprias dentro daquela relação.

Este receio vem muitas vezes da fonte do padrão. Imaginemos que temos uma relação com uma mulher que não é funcional e o padrão vem da nossa relação com a mãe, cortar esta relação pode trazer uma sensação inconsciente de estar a “abandonar a mãe”.

Mudança dos contratos relacionais

Quero aproveitar toda esta sequência para relembrar que nenhuma relação é estanque. O viver “feliz para sempre” como algo hermético para toda a vida não é real. Nós mudamos, as pessoas com quem estamos mudam e as circunstância à nossa volta também mudam. Tudo isto contribui para mudanças de etapas relacioanais que devemos observar com carinho e cuidado. Eu costumo fazer uma comparação com um contrato, cada relação tem o seu contrato e podemos adicionar adendas a essse contrato conforme a vida e as necessidades da relação se vão alterando.

Em suma, todos devemos encontrar a formula certa para podermos observar o padrão presente e descolar esse padrão da pessoal real. Só assim vamos realmente entender o ciclo e compreender onde é possível transformar esse ciclo.

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