Um dia desejei ser taxista

Um dia desejei ser taxista

Há algo nas viagens que me fascina, a forma como o ser humano se preparar para mudar. Como um ritual de iniciação, há uma preparação para sair para o trabalho, assim como um reajuste para voltar a casa. No meio sobra só a passagem, a mudança de postura e hábito.

Ficava preso na imagem dos transeuntes que cruzam a cidade num carro desconhecido. Transportando uma história que os move de um ponto ao outro. Fascinava-me a ideia de absorver histórias e experiências, sem ter que necessariamente fazer parte delas. Como quem lê um livro vivo.

Por vezes estamos tão perto dos conceitos que não nos é possível ver com clareza que eles já estão à nossa volta a existir. Demorei algum tempo a entender que o meu papel como tarólogo me trazia isso mesmo. A fugaz experiência da passagem. A passagem sem sair do lugar. Entre cartas ancestrais existem grandes vidas e singulares experiências. A consulta é como uma terra de ninguém, uma passagem, onde nada acontece mas a alma prepara o seu rito de iniciação à mudança.

Conduzo o carro sentado confortavelmente no banco da frente, sem julgar o transeunte que escolhe a minha boleia. A partilha desta curta viagem gera um momento de observação ímpar. O passageiro olha no retrovisor os seus próprios medos reflectidos nas perguntas e na forma como escolhe contar a história. O tarólogo condutor tem quilómetros de rodagem e sabe reconhecer as manhas do ego. Todos somos frágeis, todos gostamos de esconder a fragilidade na ilusão de uma falsa segurança.

Termino sem cobrar taxa de bagagem. O passageiro segue, sem deixar nada mais que a marca nos estofos dos suores frios da ansiedade de quem cruza a linha da dúvida. Avança agora sozinho, novamente no ritmo urbano da vida. Eu sigo com mais uma história, um conto fugaz que cruzou o meu caminho.

Continuarei tarólogo sem praça de táxis onde estacionar, seguirei andando procurando as histórias que ainda não sei que existem.

Vestuário para meditação

Vestuário para meditação

Este é um tópico muito interessante para mim, pois se ainda não sabes tenho formação em Design de Moda, e esta integração entre os vários mundos onde me movimento tem sido extremamente enriquecedora.

Ainda nos tempos de faculdade houve um tema que me interessou particularmente, a estimulação neurológica criada pelas peças de roupa que usamos todos os dias. Existem várias formas desta estimulação acontecer, mas vou falar de uma das mais importantes para a meditação, a pressão. A nossa pele, tida muitas vezes como o nosso “maior órgão”, contém imensos terminais nervosos que activam o nosso cérebro de forma a que tenhamos uma maior perceção do mundo. Vulgarmente poderíamos chamar a este aspecto o tacto, mas existem coisas para lá do simples toque.

Sempre que estamos a usar uma peça de roupa mais justa estamos não só a criar uma zona de contacto, como estamos a activar uma série de terminais nervosos que vão passar o dia a dizer “está aqui alguma coisa!“. Por outras palavras o nosso cérebro mesmo que tente descansar, vais estar sempre com uma chamada de atenção a essa zona.

Não é complicado observar que em diversas culturas os hábitos das pessoas ligadas às práticas religiosas são, na sua maioria, hábitos largos com pouca forma. É comum inclusive que sejam peças cuja forma não é desenhada à imagem do corpo (quase que são simples panos). O propósito poderá variar em cada cultura, mas uma coisa é certa, se o vestuário estiver afastado do corpo físico o nosso cérebro estará muito menos estimulado e por sua vez mais calmo e receptivo à “viagem astral”.

É por isso que, independentemente do tipo de meditação que estamos a fazer, eu recomendo sempre:

  • Uso de roupa larga, de preferência sem elásticos ou cintos.
  • Evitar elementos pesados como fivelas, relógios, brincos, etc.
  • Evitar os tecidos mais pesados ou que possam criar alguma irritação na pele.
  • No tempo frio é preferível uma manta leve e quente que muitas camadas de roupa.

Por último, usem peças que gostem! Pode parecer estranho mas não é… Quem nunca teve que usar uma peça de roupa emprestada porque ficou uma noite em casa de um amigo? Que nem é necessariamente feia, mas apenas não é um hábito nosso. Por mais “escondida” que a peça esteja vamos passar o dia a relembrar a sua presença, e por isso também é importante que usemos sempre peças que nos deixem confortáveis a todos os níveis, inclusive ao nível estético.

Manifesto Verde

Manifesto Verde

Para um mundo que está em transformação decidi afirmar aqui algumas palavras. Não preciso justificar-me mas sinto cada vez mais necessidade de ver esta mudança acontecer em mim e nos outros, e aqui nasce a vontade de escrever.

As preocupações ambientais no meu dia-a-dia são algo que tem vindo a moldar algumas escolhas minhas e não sentia correcto que algumas delas não fossem ainda mais transparentes no projeto Atlas do Ser. Por mais espiritual que seja o meu trabalho eu vivo na matéria, e poderás ter qualquer crença religiosa mas ela não será colocada em prática sem um mundo saudável à nossa volta. Vou falar então de algumas coisas que fui alterando na minha vida e que têm um impacto directo no projeto do Atlas, assim como algumas que ainda quero mudar no decorrer deste ano.

/ Incenso

Comecei por reduzir os incensos com componentes estranhos ou nocivos, passei a usar opções mais naturais e acabei por não comprar mais incenso porque cheguei à consciência de que todos os nossos antepassados fizeram sempre tudo com as ervas locais, minimizando químicos, transportes e embalagens.

/ Cristais

Na sequência lógica dos incensos, aos poucos fui descobrindo a forma como os cristais são extraídos, falsificados e transportados. Há cristais maravilhosos espalhados pelo nosso país fora, possíveis de apanhar sem grandes esforço, e sem os custos associados dos outros. Comecei então a fazer uma lista que em vez das propriedades energéticas de cada cristal contém as origens reais, para eu ter real consciência do que estou a comprar. Sendo que a prioriedade continua a ser comprar/apanhar o mais próximo possível.

/ Óleos essenciais

Não vou repetir as questões dos transporte e origem das plantas, acontecem os mesmos fenómenos com os óleos. Aqui acresce a produção excessiva de frascos pois as quantidades normalmente vendidas são pequenas, assim como acresce a falta de informação sobre a segurança do seu manuseio por parte de algumas marcas. Opto cada vez mais por criar infusões com ervas locais, mais suaves, mas com menos impacto ambiental.

/ Impressão de material

O projecto do Atlas não requer muito material impresso, a grande base é digital, mas ainda assim surgiu o projecto do Caderno de meditação assim como está a nascer um Oráculo. Estes objectos estão a ser pensados para cumprirem com parâmetros rígidos de produção, tintas utilizadas e formas de transporte e embalamento, para que a sua pegada ecológica seja cada vez menor. Não irei abandonar para já o formato impresso, há mistérios da matéria que o mundo digital não pode ainda transmitir, mas há muitas formas de contornar a produção destes materiais.

/ Tintas

A parte artística do Atlas é algo que tem sido um desafio, mas com tempo chegarei às soluções certas. A ideia é que todo o papel seja o mais amigo do ambiente possível, assim como as tintas, o produto final não é algo descartável, mas importo-me com as formas de produção das tintas e papeis assim como o transporte associado.

Em suma, há muitos aspectos que já foram mudando, ainda há muitas outras coisas a aprimorar sem dúvida, mas é bom que esta seja cada vez mais uma realidade possível. Sem ser mais cara, sem ser mais difícil e muito mais transparente!

Sejam consumidores conscientes.

Meditação em movimento pela Natureza

Meditação em movimento pela Natureza

The mind can go in a thousand directions.
But on this beautiful path, I walk in peace.
With each step, a gentle wind blows.
With each step, a flower blooms.
-Thich Nhat Hanh

A meditação não é apesar estar em silêncio de forma imóvel. A meditação é um momento de observação e ponderação, uma escuta activa sobre as nossas questões presentes, a transformação que vives actualmente.

Com a meditação poderás viver o momento e o meio circundante de forma mais clara e estável, sem ficar preso ao passado ou preocupado com o futuro. Mas nem sempre é simples meditar, a agitação diária os estímulos por vezes são tantos que se torna complicado ter esse momento de tranquilidade. É precisamente por isso que escrevo este momento na Natureza, um momento livre de níveis de aprendizagem ou mestria, um passeio consciente com aquilo que o universo tem de melhor para nós.

A título pessoal eu sou uma pessoa muito activa, tenho prazer em fazer desporto e estar fisicamente activo, quando comecei a meditar foi muito complicado não ter vontade de me mexer chegando até a entrar em ansiedade. Quando comecei a ter alguma prática de meditação comecei também a entender que eu na realidade tinha um conjunto de momentos meditativos que “fugiam” das normas, descobrindo as meditações activas sem dar conta disso.

Numa meditação activa existe um propósito firme em cada movimento ou acção. O foco da nossa atenção deixa de ser o comboio de pensamentos e dúvidas, passando a ser apenas um movimento, um objecto ou uma parte do corpo. Quando desligamos a pressão dos preceitos e regras, desligamos também a pressão de corresponder a um “ideal de meditação”, e começamos a ser capazes de brincar livremente com este momento especial.

Passos para uma meditação activa na natureza:

  1. Encontra em trilho minimamente conhecido para que te sintas confortável com ele e que garanta alguma tranquilidade, com poucas pessoas por perto.
  2. Começa apenas por agradecer. Observa, ainda imóvel, o local ao teu redor e agradece a sua energia agradecendo também a ti por te estares a permitir viver este momento. Sempre respirando em ciclos longos.
  3. Enraíza bem a tua energia. Se possível faz o exercício sem nada calçado, ou com uma sola bastante fina. Ainda sem sair do lugar, mexe os dedos dos pés, activa a tua raíz, sente o chão por baixo da sola dos teus pés.
  4. Neste ponto a tua respiração já deve estar mais suave e longa e o início da caminhada deve responder à mesma cadência da respiração. Passos demorados, com calma, e respeitando o teu ritmo. A cada movimento foca os teus sentidos num cheio, numa cor, num som… Permite que eles comuniquem livremente contigo.
  5. Sem dar conta o espaço começa a vibrar contigo e os pensamentos em cascata agora são apenas um riacho suave e gentil. Se algum pensamento ou pessoa persistir na tua mente não o rejeites, mas também não o alimentes. Pergunta apenas “não vou lidar contigo agora, mas o que realmente me preocupa tanto face a isto?”, tentando não examinar a situação em si mas sim o fundamento. Ansiedade? Algum receio? Uma preocupação? Seja o que for agora é o momento de viver este local e viver o teu corpo.
  6. Permanece o tempo que sentires que deves, terminando conforme começaste, agradecendo. Olha em redor para os novos detalhes que viste. Olha para ti e sente a diferença no corpo e na respiração.

Este é um exercício genérico e poderás adaptar e editar a teu gosto, desde que te permitas sempre à criação da ligação com a mãe natureza. Lembra-te sempre que a mãe natureza dá sempre todas as hipóteses para que a energia flua, as respostas cheguem e que a vida aconteça em harmonia.

Litha

Litha

O apogeu do Deus Sol, o ponto máximo conhecido também como Solstício de Verão, onde o Sol nos presenteia com o maior número de horas ao longo do dia (isto para o hemisfério norte), celebrado no dia 21 de Junho.

Este ponto alto do ano simboliza a grande maturidade do Deus Solar, o pulsar máximo da sua energia, gerando também essa mesma energia na Mãe Terra que vibra intensamente durante este período, sendo este o grande motivo pelo qual há uma preferência por colher plantas e flores para futuramente transformar em incensos, banhos florais ou para aromatizar a casa. O auge do sol traz também o auge da seiva e da floração ao universo das plantas, garantindo mais poder energético a tudo o que é colhido durante esta fase.

Em várias culturas este dia é celebrado com a invocação ao fogo, criando grandes fogueiras ou através de jogos e festas pois a ligação ao nosso corpo físico estará em evidência durante esta época. É a maturação do calor, da luz e da acção feita até aqui.

Com esta premissa já podemos definir algumas palavras chave a ter durante este período. Expandir, gerar, maturar, colher, florir.

Mas como qualquer auge, ele é em si mesmo o prenúncio da dissipação desta força, pois após a grande dia o Deus Sol irá gradualmente começar a reduzir a sua exposição, recolhendo novamente a sua energia, e dando lugar à noite, aos dias mais frios e à nutrição das emoções mais profundas. É por isso um bom momento para colher e aproveitar ao máximo tudo, pois sabemos que a estabilidade de hoje será o fogo que aquecerá o nosso inverno.

O meu desafio pessoal para este dia será entrar em contacto com a minha expansão actual, valorizando a jornada até aqui, celebrando todos os ganhos e conquistas, e reforçando a minha força pessoal para manter o crescimento firme e estável nos próximos meses!